
E nas orelhas pendiam brincos de cereja...
Os pés nus pendiam lá do alto. As sandálias tinham voado. O cabelo preso teimava em não acampanhar o bailado ao vento da saia vermelha.
Lá do alto, do topo do mundo, observava o verde que atapetava a terra húmida do vale, esquecia os problemas, esquecia as expectativas. Era simplesmente uma pessoa. Podia cantar alto como tanto gostava, relembrar o "and so Sally can wait, she knows it's too late as we're walking on by", berrar um "Tell me baby" ou simplesmente trautear "and now time is runnig out". Podia quebrar o espelho e chorar à vontade quando ouvia o "See you soon"... não seria muito difícil, parecia ter sempre o coração na garganta. Já tivera alguma habilidade a escrever. Agora ficava tudo retido na sua cabeça, a ocupar um espaço precioso, absolutamente indispensável para encher de coisas desnecessárias.
O tempo não estava húmido e o sol brilhava lá do alto. As nuvens esforçavam-se por tomar formas objectivamente reconhecíveis. E lá no alto, espreguiçava-se no cimo do penhasco rochoso, abria os braços para imediatamente os fechar e, assim, abraçar um mundo demasiadamente simples para um ser tão complexo. Ou seria o contrário?
Nunca tinha tido jeito para conversas de café, preferia não dizer nada, preferia observar apenas... O movimento da cabeça, o desviar dos olhos, os jeitos da boca, o franzir do sobrolho... Olhares de superioridade, desprezo, respeito, compreensão, pena... Olhares de nada, insondáveis, daqueles em que se observa tudo mas não se vê nada. Mãos que tudo querem mas nada conseguem, mão que tudo podem mas nada fazem. Faces sem rosto, rostos sem face, sem cor.
Levantou-se e voltou.
Lá do alto, do topo do mundo, observava o verde que atapetava a terra húmida do vale, esquecia os problemas, esquecia as expectativas. Era simplesmente uma pessoa. Podia cantar alto como tanto gostava, relembrar o "and so Sally can wait, she knows it's too late as we're walking on by", berrar um "Tell me baby" ou simplesmente trautear "and now time is runnig out". Podia quebrar o espelho e chorar à vontade quando ouvia o "See you soon"... não seria muito difícil, parecia ter sempre o coração na garganta. Já tivera alguma habilidade a escrever. Agora ficava tudo retido na sua cabeça, a ocupar um espaço precioso, absolutamente indispensável para encher de coisas desnecessárias.
O tempo não estava húmido e o sol brilhava lá do alto. As nuvens esforçavam-se por tomar formas objectivamente reconhecíveis. E lá no alto, espreguiçava-se no cimo do penhasco rochoso, abria os braços para imediatamente os fechar e, assim, abraçar um mundo demasiadamente simples para um ser tão complexo. Ou seria o contrário?
Nunca tinha tido jeito para conversas de café, preferia não dizer nada, preferia observar apenas... O movimento da cabeça, o desviar dos olhos, os jeitos da boca, o franzir do sobrolho... Olhares de superioridade, desprezo, respeito, compreensão, pena... Olhares de nada, insondáveis, daqueles em que se observa tudo mas não se vê nada. Mãos que tudo querem mas nada conseguem, mão que tudo podem mas nada fazem. Faces sem rosto, rostos sem face, sem cor.
Levantou-se e voltou.
Diário I
Senta-te.
Penso que devemos conversar, não achas?Já reparei, já sei... Nisso não me costumo enganar. Não vou dizer que estou feliz, estaria a mentir. O castelo de areia que construí durante tantos anos está pronto a ruir, a ser destruído por uma onda gigante. A felicidade foi adiada, uma nuvem colocou-se netre mim e o sol já cinzento. Aquele sol que me aquecia e sorria para mim lá do alto.
Não te consigo explicar. Ainda não encontrei explicação possível. Procurei em Harrisons, em Robbins, em Schwartzs, em livros de electrónica, mecânica, estatística, em obras de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Camus e Kierkegaard... Não encontrei nos livros mais recentes de economia ou gestão, nem na legislação.
Dir-te-ei apenas os porquês.
Porque olho para trás e lembro-me de te ver jogar à bola lá em baixo, de te ver a entrar e olhar para as escadas.
Porque anseio todos os dias por te encontrar.
Porque quando vou no autocarro de manhã, olho pela janela e imagino-te a sair de casa.
Porque sorrio a quem me rodeia a pensar no brilho dos teus olhos.
Porque canto a ouvir a tua voz e a tentar acompanhá-la.
Porque te respondo em silêncio às perguntas que me fazes.
Porque olho para a fotografia e lembro-me dos teatros e do "eterno monge".
Porque me preocupo.
Porque pego na caixa azul e recordo.
Porque me recordo do significado do "Another Perfect Day".
Porque espero pacientemente que nada aconteça.
Passaram tantos anos, mas parece que foi ontem... No tempo em que desenhava rostos a carvão, no tempo em que ainda sabia escrever, sabia sonhar, no tempo em que era ingenuamente feliz...
As imagens continuam a passar diante dos meus olhos em slow motion e a preto e branco. O "gap" continua lá.
Personne
Mais um ano, mais uma experiência... Sem me conseguir habituar,... Ainda bem.
“Ao te curvares com a rígida lâmina do teu bisturi sobre o cadáver desconhecido lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu, embalado pela fé e pela esperança daquele que em seu seio o agasalhou. Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens. Acalentou a esperança num amanhã feliz e agora jaz em fria lousa sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima se quer, sem que se tivesse dito uma só prece. Seu nome só Deus sabe. Mas o destino inexorável deu – lhe o poder e a grandeza de servir a humanidade, humanidade que por ele passou indiferente.”
Rokitanski, 1876
Rokitanski, 1876
Adiamento - Álvaro de Campos
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Trip 1
Acordou cedo na 6ªfeira. Tinha viagem marcada para as 18h35 desse dia. Tinha ansiado por aquele momento durante aquelas semanas. Agora, não lhe apetecia ir, preferia ficar ali na cama, debaixo dos cobertores quentes...
Arrastou-se para fora da cama. Precisava de um duche frio e rápido para "pôr as ideias no sítio", de umas boas estaladas e beliscões para ver se acordava realmente e se deixava de ideias parvas.
Fez as malas, arrumou tudo. Só ela levou uma mala cheia de roupa (acabou por nem usar metade...).
Foi. A cidade estava "escuramente iluminada", o avião vazio de vida.
Cruzou os céus, sobrevoou Madrid, os Pirinéus,... viu lá em baixo Pau, Lyon, Zurich, Innsbruck... e München...
-------------
Voltou como uma sensação estranha e os olhos a saberem a sal...
Arrastou-se para fora da cama. Precisava de um duche frio e rápido para "pôr as ideias no sítio", de umas boas estaladas e beliscões para ver se acordava realmente e se deixava de ideias parvas.
Fez as malas, arrumou tudo. Só ela levou uma mala cheia de roupa (acabou por nem usar metade...).
Foi. A cidade estava "escuramente iluminada", o avião vazio de vida.
Cruzou os céus, sobrevoou Madrid, os Pirinéus,... viu lá em baixo Pau, Lyon, Zurich, Innsbruck... e München...
-------------
Voltou como uma sensação estranha e os olhos a saberem a sal...
hoje é 5ªfeira, isso diz tudo
Já nem consigo contar as vezes que abri esta página, desesperada por escrever tudo o que gira "cá dentro" num turbilhão, sem nunca o conseguir. A montanha de tudos e nadas que arrasto comigo todos os dias, que escondo por detrás de uma máscara, que tento a todo o custo despejar num simples teclado para me sentir mais leve.
A vida acaba por ter tão pouco sentido, tão pouco sabor! Correr atrás de uma disciplina, de uma nota, de um trabalho, corresponder a toneladas de expectativas de terceiros, estar à altura, não falhar, ter medo de falhar. A parte das expectativas é crucial... A parte de me quererem delinear a vida é "excelente"... A parte de me arrasarem moralmente é do melhor!
Já não ouço, já não falo, já não penso, já não sinto...
A máquina venceu o ser, o automatismo ultrapassou a pessoa.
A vida acaba por ter tão pouco sentido, tão pouco sabor! Correr atrás de uma disciplina, de uma nota, de um trabalho, corresponder a toneladas de expectativas de terceiros, estar à altura, não falhar, ter medo de falhar. A parte das expectativas é crucial... A parte de me quererem delinear a vida é "excelente"... A parte de me arrasarem moralmente é do melhor!
Já não ouço, já não falo, já não penso, já não sinto...
A máquina venceu o ser, o automatismo ultrapassou a pessoa.
Insira um título 2007-2008
Este ano tem sido diferente, cansativo, diferente. Solicitações, trabalhos da faculdade, testes, frequências, créditos, ensaios, aulas, explicações, reuniões e outros que tais. Mudanças radicais. Mas será que ninguém arranja mais nada para eu fazer?? Mais qualquer coisinha, não? Vá lá!
Acabamos por nos perder no meio de tanta coisa... e esquecer o que é realmente importante... Falo por mim...
Acabamos por nos perder no meio de tanta coisa... e esquecer o que é realmente importante... Falo por mim...
Next year
Next year, things are gonna change
Gonna drink less beer, and start all over again
Gonna read more books, gonna keep up with the news
Gonna learn how to cook, spend less money on shoes
I’ll pay my bills on time,and file my mail away, everyday
Only drink the finest wine,and call my Gran every Sunday
Resolutions, baby they come and goWill I do any of these things?
The answers probably no
If there’s one thing I must do, despite my greatest fears
I’m gonna say to you, how I felt all of these years
Next Year
Next Year
I’m gonna tell you how I feel
I‘m gonna tell you how I feel
Resolutions, baby they come and go
Will I do any of these things?
The answer's probably no
If there’s one thing I must do, despite my greatest fears
I’m gonna say to you, how I felt all of these years
Next Year
Next Year
(Next year baby, Jamie Cullum)
Gonna drink less beer, and start all over again
Gonna read more books, gonna keep up with the news
Gonna learn how to cook, spend less money on shoes
I’ll pay my bills on time,and file my mail away, everyday
Only drink the finest wine,and call my Gran every Sunday
Resolutions, baby they come and goWill I do any of these things?
The answers probably no
If there’s one thing I must do, despite my greatest fears
I’m gonna say to you, how I felt all of these years
Next Year
Next Year
I’m gonna tell you how I feel
I‘m gonna tell you how I feel
Resolutions, baby they come and go
Will I do any of these things?
The answer's probably no
If there’s one thing I must do, despite my greatest fears
I’m gonna say to you, how I felt all of these years
Next Year
Next Year
(Next year baby, Jamie Cullum)
Gone with the wind... forever
Foste, assim, sem ninguém esperar...
Foste, mergulhaste fundo, no vazio do tempo do espaço, no vazio do nada...
Foste, sem abrir a boca, soltar um ai, um suspiro já de saudade...
Foste, foste para longe para onde ninguém te pode acompanhar...
Foste, saltaste para um abismo escuro, repleto de silêncio...
Foste, sem te despedir, sem dizer a verdade...
Foste, escondendo segredos, soltando poucas verdades...
Foste,... como foste? Como pudeste ir?
[à Inês]
Foste, mergulhaste fundo, no vazio do tempo do espaço, no vazio do nada...
Foste, sem abrir a boca, soltar um ai, um suspiro já de saudade...
Foste, foste para longe para onde ninguém te pode acompanhar...
Foste, saltaste para um abismo escuro, repleto de silêncio...
Foste, sem te despedir, sem dizer a verdade...
Foste, escondendo segredos, soltando poucas verdades...
Foste,... como foste? Como pudeste ir?
[à Inês]
Danse inside
A folha dourada desprendeu-se do ramo seco naquela manhã fria. A decisão foi fruto de uma prolongada ponderação. Sim, sentiu que era tempo, que chegara o momento de deixar de ser apenas um apêndice daquele corpo inanimado e sem alma. Queria voar, conhecer o que se escondia por detrás daqueles fios de algodão lá no céu, ser embalado pela brisa...
Engraçado... foi logo envolvida por um sopro demasiado forte. Rodopiou. Caiu. Alguém desatento pisou-a...
Engraçado... foi logo envolvida por um sopro demasiado forte. Rodopiou. Caiu. Alguém desatento pisou-a...
Verb
Saio de casa. Fecho a porta. Chamo o elevador. Espero. Olho para o tecto. Entro no elevador. Carrego no botão "piso 0". Olho para o relógio. Abro a mala e vejo se trouxe tudo. Saio do elevador. Atravesso o hall. Abro a porta. Saio. Fecho a porta. Caminho pela calçada. Ando. Ando. Ando. Atravesso a passadeira. Ando. Atravesso a passadeira. Ando. Atravesso as passadeiras. Ando. Subo as escadas. Ando. Faço uma curva. Continuo. Diminuo a velocidade. Entro. Digo boa tarde. Avanço. Olho para a esquerda. Sorrio e os livros que trago na mão caem ao chão.
The green dress
Tirou o vestido verde do armário. Sim, era perfeito. Colocou-o e olhou-se ao espelho baço. Era um vestido de corte simples, de um verde-escuro um tanto ao quanto misterioso. Chegava-lhe aos pés. As duas alças caíam graciosamente nos seus ombros brancos. As suas costas abriam-se timidamente através do discreto decote em V.
Debruçou-se e debaixo da cama tirou os sapatos pretos de fivela e salto alto. Calçou-os e dirigiu-se para a cómoda de carvalho antigo e pesado. Da caixa de pau-rosa tirou os brincos de pérola e um colar simples de ouro branco com duas pequenas esmeraldas. Não colocou nenhum anel ou pulseira.
Voltou a olhar-se ao espelho. O cabelo negro e ondulado estava apanhado na nuca. Do seu rosto destacavam-se os seus lábios vermelhos e vivos. As maçãs do rosto marcadas escondiam pó de arroz e, entre aquelas, desenhava-se um nariz pequeno mas recto. Os olhos cinzentos e grandes estavam camuflados por pestanas longas e escuras e acima destes estendiam-se as sobrancelhas escuras e finas, cuidadosamente arranjadas.
Voltou-se e abriu as janelas de par em par. Lá fora o sol deitava-se por entre as folhagens das árvores esverdeadas e o vermelho alaranjado do céu fazia adivinhar uma bela noite de verão. A relva estendia-se aos pés daquela elegante e grande mansão de estilo georgiano. Ao fundo, avistava-se o lago rodeado por juncos. Aqui e ali proliferavam canteiros coloridos e serpenteava um caminho de pedra enegrecida.
Subitamente, bateram à porta.
- Sim?
- Estás simplesmente magnífica! – exclamou Edward, que vestia o seu melhor tuxedo.
Eleanor sorriu e deu uma volta.
- Gostas mesmo? Não achas que é um bocado… bem…
- É perfeito! Espera só até ao James te ver! – e, dando-lhe o braço, saíram do quarto para o corredor, iluminado por candeeiros de velas e generosamente decorado com retratos e tapeçarias que ilustravam grandes caçadas. O chão de madeira de carvalho rangia com o andar dos dois irmãos.
Finalmente, desceram a escadaria que desembocava no grande hall da entrada, onde eram esperados pelos pais, Mr. e Mrs. Gérard, e por alguns dos convidados para o jantar, Miss Renaud, Mr. e Mrs. Galton-Watson, Mr. Laughton, Mr. e Mrs. Smith-Jones e, claro, James Cavendish acompanhado pelos pais e a irmã Margaret. James tratou logo de tomar o lugar de Edward Gérard, dando o braço à esplendorosa e corada Eleanor.
Depois dos cumprimentos iniciais e elogios aos vestidos e jóias, a família anfitriã e os seus convidados foram conduzidos ao salão, uma enorme divisão de paredes amarelas e janelas escondidas por cortinados pesados e brancos. À volta de uma mesinha redonda dispunham-se dois sofás do mesmo tecido dos cortinados. Em cima de um móvel enorme que corria uma das paredes encontravam-se inúmeras peças de porcelana e uma jarra azul onde desabrochavam lindas flores que perfumavam o ar. As senhoras sentaram-se nos sofás partilhando as últimas novidades da alta sociedade inglesa. Paralelamente, os cavalheiros recolhiam-se junto à lareira onde discutiam os últimos sobressaltos políticos vividos na velha Europa.
Eleanor e James encontravam-se num mundo completamente à parte. Estavam junto ao grande piano de cauda e trocavam impressões sobre os últimos romances lidos, faziam planos para o futuro. Ela, deslumbrante e viva. Ele, correcto e impecável.
James era um jovem de 23 anos, alto e magro, de cabelo cor castanho claro e olhos negros. Estudava em Cambridge. As suas mãos grandes e ágeis deixavam claro que era um grande pianista. Essas mãos envolviam carinhosamente as de Eleanor e conduziram-na para a sala de jantar.
Após a refeição composta por uma profusão de pratos e bebidas, James levantou-se, tossiu e colocou a mão direita sobre o ombro desnudado de Eleanor. Chegara o momento.
No entanto, antes que pudesse dizer algo, ouviu-se um silvo a aproximar-se mais e mais e, nisto, uma grande explosão silenciou o salão. Os talheres de prata tremeram sobre a toalha vermelha, o candeiro do tecto abanou perigosamente, a jarra azul caiu e partiu-se. Por qualquer razão ninguém se levantou, se baixou. Não, estavam todos parados estupidamente a olhar uns para os outros, sem qualquer expressão.
Um outro silvo irrompeu pela noite. As janelas partiram-se e lançaram estilhaços em todas as direcções. A parede desabou.
James só se lembrava de ouvir gritos e de ter sido projectado contra uma parede. Agora estava tudo silencioso… demais. Tossiu tal era o pó que se levantava. As ruínas invadiam o antigo salão e alguém corria em direcção à cozinha. Uma mão aparecia debaixo de um monte de madeira e pedras, inanimada. Sentiu um peso no coração. Eleanor? Onde estaria?
Queria levantar-se mas não conseguia, não sentia as pernas. Estendeu as mãos ensanguentadas e tentou desesperadamente arrastar-se. O olhar turvo tornava-lhe difícil distinguir as formas. A cabeça latejava fortemente. Passou pelo corpo esquecido de Miss Renaud, mais à frente encontrou um sapato, depois um lenço branco.
Junto ao que restava da lareira encontrou um pedaço de seda verde. Do vestido de Eleanor. Da Eleanor que jazia junto a uma janela como que a dormir, pálida, de lábios vermelhos. Um corte profundo sulcava-lhe a fronte, o cabelo negro espalhava-se como se fosse uma almofada. James chorou junto àquele rosto ferido, limpou-o com as suas lágrimas saturadas de amargura.
Tirou uma pequena caixa de veludo preto do casaco sujo de terra e pó e, de dentro desta, retirou o pequeno anel. Solenemente, colocou-o no dedo de Eleanor...
Debruçou-se e debaixo da cama tirou os sapatos pretos de fivela e salto alto. Calçou-os e dirigiu-se para a cómoda de carvalho antigo e pesado. Da caixa de pau-rosa tirou os brincos de pérola e um colar simples de ouro branco com duas pequenas esmeraldas. Não colocou nenhum anel ou pulseira.
Voltou a olhar-se ao espelho. O cabelo negro e ondulado estava apanhado na nuca. Do seu rosto destacavam-se os seus lábios vermelhos e vivos. As maçãs do rosto marcadas escondiam pó de arroz e, entre aquelas, desenhava-se um nariz pequeno mas recto. Os olhos cinzentos e grandes estavam camuflados por pestanas longas e escuras e acima destes estendiam-se as sobrancelhas escuras e finas, cuidadosamente arranjadas.
Voltou-se e abriu as janelas de par em par. Lá fora o sol deitava-se por entre as folhagens das árvores esverdeadas e o vermelho alaranjado do céu fazia adivinhar uma bela noite de verão. A relva estendia-se aos pés daquela elegante e grande mansão de estilo georgiano. Ao fundo, avistava-se o lago rodeado por juncos. Aqui e ali proliferavam canteiros coloridos e serpenteava um caminho de pedra enegrecida.
Subitamente, bateram à porta.
- Sim?
- Estás simplesmente magnífica! – exclamou Edward, que vestia o seu melhor tuxedo.
Eleanor sorriu e deu uma volta.
- Gostas mesmo? Não achas que é um bocado… bem…
- É perfeito! Espera só até ao James te ver! – e, dando-lhe o braço, saíram do quarto para o corredor, iluminado por candeeiros de velas e generosamente decorado com retratos e tapeçarias que ilustravam grandes caçadas. O chão de madeira de carvalho rangia com o andar dos dois irmãos.
Finalmente, desceram a escadaria que desembocava no grande hall da entrada, onde eram esperados pelos pais, Mr. e Mrs. Gérard, e por alguns dos convidados para o jantar, Miss Renaud, Mr. e Mrs. Galton-Watson, Mr. Laughton, Mr. e Mrs. Smith-Jones e, claro, James Cavendish acompanhado pelos pais e a irmã Margaret. James tratou logo de tomar o lugar de Edward Gérard, dando o braço à esplendorosa e corada Eleanor.
Depois dos cumprimentos iniciais e elogios aos vestidos e jóias, a família anfitriã e os seus convidados foram conduzidos ao salão, uma enorme divisão de paredes amarelas e janelas escondidas por cortinados pesados e brancos. À volta de uma mesinha redonda dispunham-se dois sofás do mesmo tecido dos cortinados. Em cima de um móvel enorme que corria uma das paredes encontravam-se inúmeras peças de porcelana e uma jarra azul onde desabrochavam lindas flores que perfumavam o ar. As senhoras sentaram-se nos sofás partilhando as últimas novidades da alta sociedade inglesa. Paralelamente, os cavalheiros recolhiam-se junto à lareira onde discutiam os últimos sobressaltos políticos vividos na velha Europa.
Eleanor e James encontravam-se num mundo completamente à parte. Estavam junto ao grande piano de cauda e trocavam impressões sobre os últimos romances lidos, faziam planos para o futuro. Ela, deslumbrante e viva. Ele, correcto e impecável.
James era um jovem de 23 anos, alto e magro, de cabelo cor castanho claro e olhos negros. Estudava em Cambridge. As suas mãos grandes e ágeis deixavam claro que era um grande pianista. Essas mãos envolviam carinhosamente as de Eleanor e conduziram-na para a sala de jantar.
Após a refeição composta por uma profusão de pratos e bebidas, James levantou-se, tossiu e colocou a mão direita sobre o ombro desnudado de Eleanor. Chegara o momento.
No entanto, antes que pudesse dizer algo, ouviu-se um silvo a aproximar-se mais e mais e, nisto, uma grande explosão silenciou o salão. Os talheres de prata tremeram sobre a toalha vermelha, o candeiro do tecto abanou perigosamente, a jarra azul caiu e partiu-se. Por qualquer razão ninguém se levantou, se baixou. Não, estavam todos parados estupidamente a olhar uns para os outros, sem qualquer expressão.
Um outro silvo irrompeu pela noite. As janelas partiram-se e lançaram estilhaços em todas as direcções. A parede desabou.
James só se lembrava de ouvir gritos e de ter sido projectado contra uma parede. Agora estava tudo silencioso… demais. Tossiu tal era o pó que se levantava. As ruínas invadiam o antigo salão e alguém corria em direcção à cozinha. Uma mão aparecia debaixo de um monte de madeira e pedras, inanimada. Sentiu um peso no coração. Eleanor? Onde estaria?
Queria levantar-se mas não conseguia, não sentia as pernas. Estendeu as mãos ensanguentadas e tentou desesperadamente arrastar-se. O olhar turvo tornava-lhe difícil distinguir as formas. A cabeça latejava fortemente. Passou pelo corpo esquecido de Miss Renaud, mais à frente encontrou um sapato, depois um lenço branco.
Junto ao que restava da lareira encontrou um pedaço de seda verde. Do vestido de Eleanor. Da Eleanor que jazia junto a uma janela como que a dormir, pálida, de lábios vermelhos. Um corte profundo sulcava-lhe a fronte, o cabelo negro espalhava-se como se fosse uma almofada. James chorou junto àquele rosto ferido, limpou-o com as suas lágrimas saturadas de amargura.
Tirou uma pequena caixa de veludo preto do casaco sujo de terra e pó e, de dentro desta, retirou o pequeno anel. Solenemente, colocou-o no dedo de Eleanor...
(Bia M.)
FECHADO PARA FÉRIAS!
Depois do exame de anatomia, já posso dizer que sou 1/6 de médica :) (YES :P)
Agora muito descanso... local das férias... ahhhhh isso agora...!
Depois do exame de anatomia, já posso dizer que sou 1/6 de médica :) (YES :P)
Agora muito descanso... local das férias... ahhhhh isso agora...!
Traduz saudade...!

A saudade é um sentimento ingrato, estúpido... Francamente, serve de alguma coisa??? Só nos tortura com pensamentos, hipóteses remotas. Se não aconteceu, pronto! O relógio não volta atrás, portanto para quê gastar tempo, energias em suposições fantasiosas? Sim, porque aquilo que nos lembramos já não é aquilo que vivemos...
Mas agora diz lá... não é tão bom fechar os olhos, olhar para trás, inspirar bem fundo e lembrar, ver aquela face à nossa frente, recordar aquela voz. É bom, não é? Então vamos lá ter saudade...
And our lives are forever changed...
Move along (All American Reject)
Another Perfect Day (American Hi-Fi) [Belos tempos]
I Miss You (Blink 182)
Everybody hurts (REM)
Letting the Cables Sleep (Bush)
God Put a Smile Upon Your Face (Coldplay)
Green Eyes (Coldplay)
A Rush of Blood to the Head (Coldplay)
Amsterdam (Coldplay)
Hardest Part (Coldplay)
A Message (Coldplay)
Trouble (Coldplay)
Good Riddance (Green Day)
I Will Follow You Into the Dark (Death Crab for Cutie)
Beadshaped (Keane)
Oh God (Jamie Cullum)
Catch the Sun (Jamie Cullum)
All at the Sea (Jamie Cullum)
Photograph (Jamie Cullum)
Next Year (Jamie Cullum)
When you were young (The Killers)
Read My Mind (The Killers)
Bones (The Killers)
Smile Like You Meant It (The Killers)
Helena (My Chemical Romance)
Famous Last Words (My Chemical Romance)
Welcome To The Black Parade (My Chemical Romance)
California (Phantom Planet)
This Picture (Placebo)
Every Me And Every You (Placebo)
Last Kiss (Pearl Jam)
Tell Me Baby (Red Hot Chilli Peppers)
Snow (Hey Oh) (Red Hot Chilli Peppers)
By The Way (Red Hot Chilli Peppers)
Chasing Cars (Snow Patrol)
Chocolate (Snow Patrol)
You Could Be Happy (Snow Patrol)
Open Your Eyes (Snow Patrol)
Anna Molly (Incubus)
You Give Me Something (James Morrison)
Times Like These (Foo Fighters)
High And Dry (Radiohead)
Creep (Radiohead)
Blame It On My Youth (Jamie Cullum)
You (Rita Coolidge)
Take Me Out (Franz Ferdinand)
Walk Away (Franz Ferdinand)
Gravity (Embrace)
Maria (Xutos e Pontapés)
Homem do Leme (Xutos e Pontapés)
Look What You’ve Done (Jet)
Talk of The Town (Jack Johnson)
Starlight (Muse)
Patiente (Guns N’Roses)
Tonight, Tonight (Smashing Pumpkins)
1979 (Smashing Pumpkins)
[E não me lembro de mais... depois edito... o que a anatomia faz!]
Another Perfect Day (American Hi-Fi) [Belos tempos]
I Miss You (Blink 182)
Everybody hurts (REM)
Letting the Cables Sleep (Bush)
God Put a Smile Upon Your Face (Coldplay)
Green Eyes (Coldplay)
A Rush of Blood to the Head (Coldplay)
Amsterdam (Coldplay)
Hardest Part (Coldplay)
A Message (Coldplay)
Trouble (Coldplay)
Good Riddance (Green Day)
I Will Follow You Into the Dark (Death Crab for Cutie)
Beadshaped (Keane)
Oh God (Jamie Cullum)
Catch the Sun (Jamie Cullum)
All at the Sea (Jamie Cullum)
Photograph (Jamie Cullum)
Next Year (Jamie Cullum)
When you were young (The Killers)
Read My Mind (The Killers)
Bones (The Killers)
Smile Like You Meant It (The Killers)
Helena (My Chemical Romance)
Famous Last Words (My Chemical Romance)
Welcome To The Black Parade (My Chemical Romance)
California (Phantom Planet)
This Picture (Placebo)
Every Me And Every You (Placebo)
Last Kiss (Pearl Jam)
Tell Me Baby (Red Hot Chilli Peppers)
Snow (Hey Oh) (Red Hot Chilli Peppers)
By The Way (Red Hot Chilli Peppers)
Chasing Cars (Snow Patrol)
Chocolate (Snow Patrol)
You Could Be Happy (Snow Patrol)
Open Your Eyes (Snow Patrol)
Anna Molly (Incubus)
You Give Me Something (James Morrison)
Times Like These (Foo Fighters)
High And Dry (Radiohead)
Creep (Radiohead)
Blame It On My Youth (Jamie Cullum)
You (Rita Coolidge)
Take Me Out (Franz Ferdinand)
Walk Away (Franz Ferdinand)
Gravity (Embrace)
Maria (Xutos e Pontapés)
Homem do Leme (Xutos e Pontapés)
Look What You’ve Done (Jet)
Talk of The Town (Jack Johnson)
Starlight (Muse)
Patiente (Guns N’Roses)
Tonight, Tonight (Smashing Pumpkins)
1979 (Smashing Pumpkins)
[E não me lembro de mais... depois edito... o que a anatomia faz!]
Persuasão
Anne know not how to understand it. She had the kindest "Good morning, God bless you!"from Captain Harville, but from him not a word, nor a look! He had passed out of the room without a look! She had only time, however, to move closer to the table wherehe had been writing, when footsteps were heard returning; the door opened, it was himself. He begged their pardon, but he had forgotten his gloves, and instantly crossing the room to the writing table, he drew out a letter from under the scattered paper, placed it before Anne with eyes of glowing entreaty fixed on her for a time, and hastily collecting his gloves, was again out of the room, almost before Mrs Musgrove was aware of his being in it: the work of an instant!
The revolution which one instant had made in Anne, was almost beyond expression. The letter, with a direction hardly legible,to "Miss A. E." was evidently the one which he had been foldingso hastily. While supposed to be writing only to Captain Benwick,he had been also addressing her! On the contents of that letter depended all which this world could do for her. Anything was possible, anything might be defied rather than suspense. Mrs Musgrove hadlittle arrangements of her own at her own table; to their protection she must trust, and sinking into the chair which he had occupied, succeeding to the very spot where he had leaned and written, her eyes devoured the following words: "I can listen no longer in silence. I must speak to you by such means as are within my reach. You pierce my soul. I am half agony, half hope. Tell me not that I am too late, that such precious feelings are gone for ever. I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it, eight years and a half ago. Dare not say that man forgets sooner than woman, that his love has an earlier death. I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. You alone have brought me to Bath. For you alone, I think and plan. Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice when they would be lost on others. Too good, too excellent creature! You do us justice, indeed. You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating, in F. W.
I must go, uncertain of my fate; but I shall return hither, or follow your party, as soon as possible. A word, a look,will be enough to decide whether I enter your father's house this evening or never."
The revolution which one instant had made in Anne, was almost beyond expression. The letter, with a direction hardly legible,to "Miss A. E." was evidently the one which he had been foldingso hastily. While supposed to be writing only to Captain Benwick,he had been also addressing her! On the contents of that letter depended all which this world could do for her. Anything was possible, anything might be defied rather than suspense. Mrs Musgrove hadlittle arrangements of her own at her own table; to their protection she must trust, and sinking into the chair which he had occupied, succeeding to the very spot where he had leaned and written, her eyes devoured the following words: "I can listen no longer in silence. I must speak to you by such means as are within my reach. You pierce my soul. I am half agony, half hope. Tell me not that I am too late, that such precious feelings are gone for ever. I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it, eight years and a half ago. Dare not say that man forgets sooner than woman, that his love has an earlier death. I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. You alone have brought me to Bath. For you alone, I think and plan. Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice when they would be lost on others. Too good, too excellent creature! You do us justice, indeed. You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating, in F. W.
I must go, uncertain of my fate; but I shall return hither, or follow your party, as soon as possible. A word, a look,will be enough to decide whether I enter your father's house this evening or never."
in Persuasion, Jane Austen
21 gramas?
Quanto pesa a vida?
Quanto pesa o sorriso perdido, os "novos" olhos sem brilho?
Quanto pesam as lágrimas que já não são choradas, os gritos agora reprimidos?
Quanto pesa a mão inanimada que não consegue tocar o rosto que está à sua frente?
Quanto pesa a saudade?
Quanto pesam os sonhos esquecidos, os castelos caídos?
Quanto pesam as música que já não são ouvidas ou cantadas?
Quanto pesam os projectos não construídos?
Quanto pesam as expectativas frustradas?
Quanto pesa a dor sentida que estilhaça o peito?
Quanto pesa o esquecimento, a indiferença?
Quanto pesa a nova solidão, a nova comunhão com a terra?
Seguramente não apenas 21 gramas...
Quanto pesa o sorriso perdido, os "novos" olhos sem brilho?
Quanto pesam as lágrimas que já não são choradas, os gritos agora reprimidos?
Quanto pesa a mão inanimada que não consegue tocar o rosto que está à sua frente?
Quanto pesa a saudade?
Quanto pesam os sonhos esquecidos, os castelos caídos?
Quanto pesam as música que já não são ouvidas ou cantadas?
Quanto pesam os projectos não construídos?
Quanto pesam as expectativas frustradas?
Quanto pesa a dor sentida que estilhaça o peito?
Quanto pesa o esquecimento, a indiferença?
Quanto pesa a nova solidão, a nova comunhão com a terra?
Seguramente não apenas 21 gramas...
But the eyes didn't move...
O dia estava a ser horrível. A folha que vira tinha a sua sentença… Os sonhos que alimentara desvaneceram-se em escassos milésimos de segundo. O sorriso que trazia escapou-se, sabe-se lá para onde! Enfim, só queria sair dali, fugir, não importava como, porquê.
O autocarro estava parado ao fundo. Sim, podia ir nele… X entrou, na esperança de calor humano, de um sorriso, mas encontrou apenas caras carregadas, silêncios cortantes. X sentia-se mal, sentia-se a desvanecer. Sentou-se nos bancos de trás, longe.
Olhou pela janela, para as nuvens que preenchiam o céu ameaçador. O trânsito estava caótico… típico de uma Lisboa às cinco da tarde. O autocarro fez a curva e… lá estava o carro estacionado debaixo das árvores… aquele… Fechou os olhos, esqueceu, ou melhor tentou esquecer, porque simplesmente há coisas que não se esquecem por mais que se tente, que se lute, que se queira do fundo do coração.
O autocarro entrou na avenida. As lágrimas escorriam pela face de X. Não queria, mas continuava. O autocarro parou. Saíram pessoas, entraram pessoas. X tentou esconder-se lá atrás. Escusavam de ver aqueles olhos vermelhos, sem brilho. Mas algo levou X a olhar, a sair do seu casulo.
E subitamente, sem querer, os seus olhos cruzaram-se com uns olhos castanhos, com um brilho de vida. Desviou o olhar. Voltou a tentar procurar aqueles olhos. Sim, encontrou-os, mas estavam em movimento, a subir as escadinhas, a atravessar o corredor. Os olhos estavam ao seu lado. Y estava sentado ao seu lado. A mala estava sobre as suas pernas, na sua boca estava rasgado um sorriso verdadeiro. Tirou os auscultadores dos ouvidos. Estava ali, disponível para ouvir, para partilhar no silêncio. Timidamente, agarrou na mão de X, não deixaria que X se sentisse só.
Permaneceram lá atrás, assim, tábuas de salvação um do outro. E sabia tão bem ter ali alguém…
Mais uma paragem, mais outra e outra. Quem dera que a viagem não acabasse, que os dois pudessem estar ali, estranhos um ao outro mas tão próximos.
Aproximava-se a paragem onde X deveria descer. Estava tão próxima… Deveria levantar-se, sair. Olhou para o lado, encontrou os olhos de Y e Y percebeu que tinha de se levantar, que tinha de se despedir.
Sem nunca largar aquela mão, X levantou-se. O autocarro parou. Y sussurrou um adeus. X respondeu “obrigado”. Ambos tinham os olhos marejados de lágrimas recusavam transbordar, lágrimas sentidas, já de uma saudade adiada. X teve que ir, teve que largar a mão. Saiu sem olhar para trás, ao encontro da chuva que escorria dos céus negros. Saiu com o coração apertado e arrependido por não ser capaz… Não ser capaz, pela enésima vez na vida, de dizer o que sentia, de seguir o coração, de deixar para trás aquele racionalidade estúpida. Tinha de ser capaz de o fazer! Tinha….
Parou no meio da estrada. Era agora, tinha de ser, não podia adiar novamente, não podia ficar sem saber outra vez.
Voltou-se e correu desesperadamente para o autocarro. As últimas pessoas entravam… Mais depressa, mais! O coração batia mais forte, sentia a pressão do sangue contra a carótida, a latejar.
Mais um bocadinho! Não podia perder novamente! Desesperadamente, bateu nos vidros das portas do autocarro. As portas abriram-se e X entrou a escorrer água por todos os poros. Precipitou-se pelo corredor, por entre aquele mar de pessoas.
De repente, estacou.
Os olhos dela encontraram o brilho dos olhos dele.
O autocarro estava parado ao fundo. Sim, podia ir nele… X entrou, na esperança de calor humano, de um sorriso, mas encontrou apenas caras carregadas, silêncios cortantes. X sentia-se mal, sentia-se a desvanecer. Sentou-se nos bancos de trás, longe.
Olhou pela janela, para as nuvens que preenchiam o céu ameaçador. O trânsito estava caótico… típico de uma Lisboa às cinco da tarde. O autocarro fez a curva e… lá estava o carro estacionado debaixo das árvores… aquele… Fechou os olhos, esqueceu, ou melhor tentou esquecer, porque simplesmente há coisas que não se esquecem por mais que se tente, que se lute, que se queira do fundo do coração.
O autocarro entrou na avenida. As lágrimas escorriam pela face de X. Não queria, mas continuava. O autocarro parou. Saíram pessoas, entraram pessoas. X tentou esconder-se lá atrás. Escusavam de ver aqueles olhos vermelhos, sem brilho. Mas algo levou X a olhar, a sair do seu casulo.
E subitamente, sem querer, os seus olhos cruzaram-se com uns olhos castanhos, com um brilho de vida. Desviou o olhar. Voltou a tentar procurar aqueles olhos. Sim, encontrou-os, mas estavam em movimento, a subir as escadinhas, a atravessar o corredor. Os olhos estavam ao seu lado. Y estava sentado ao seu lado. A mala estava sobre as suas pernas, na sua boca estava rasgado um sorriso verdadeiro. Tirou os auscultadores dos ouvidos. Estava ali, disponível para ouvir, para partilhar no silêncio. Timidamente, agarrou na mão de X, não deixaria que X se sentisse só.
Permaneceram lá atrás, assim, tábuas de salvação um do outro. E sabia tão bem ter ali alguém…
Mais uma paragem, mais outra e outra. Quem dera que a viagem não acabasse, que os dois pudessem estar ali, estranhos um ao outro mas tão próximos.
Aproximava-se a paragem onde X deveria descer. Estava tão próxima… Deveria levantar-se, sair. Olhou para o lado, encontrou os olhos de Y e Y percebeu que tinha de se levantar, que tinha de se despedir.
Sem nunca largar aquela mão, X levantou-se. O autocarro parou. Y sussurrou um adeus. X respondeu “obrigado”. Ambos tinham os olhos marejados de lágrimas recusavam transbordar, lágrimas sentidas, já de uma saudade adiada. X teve que ir, teve que largar a mão. Saiu sem olhar para trás, ao encontro da chuva que escorria dos céus negros. Saiu com o coração apertado e arrependido por não ser capaz… Não ser capaz, pela enésima vez na vida, de dizer o que sentia, de seguir o coração, de deixar para trás aquele racionalidade estúpida. Tinha de ser capaz de o fazer! Tinha….
Parou no meio da estrada. Era agora, tinha de ser, não podia adiar novamente, não podia ficar sem saber outra vez.
Voltou-se e correu desesperadamente para o autocarro. As últimas pessoas entravam… Mais depressa, mais! O coração batia mais forte, sentia a pressão do sangue contra a carótida, a latejar.
Mais um bocadinho! Não podia perder novamente! Desesperadamente, bateu nos vidros das portas do autocarro. As portas abriram-se e X entrou a escorrer água por todos os poros. Precipitou-se pelo corredor, por entre aquele mar de pessoas.
De repente, estacou.
Os olhos dela encontraram o brilho dos olhos dele.
as usual
escrevo, apago, escrevo, apago...
E é nesta inevitável polaridade que me balanço no momento em que escrevo estas linhas às escuras... Raio de inspiração!
Ahhh...
E é nesta inevitável polaridade que me balanço no momento em que escrevo estas linhas às escuras... Raio de inspiração!
Ahhh...
Lizzy VS Darcy

(said Elizabeth) "There has been many a one, I fancy, overcome in the same way. I wonder who first discovered the efficacy of poetry in driving away love!"
"I have been used to consider poetry as the food of love," said Darcy.
"Of a fine, stout, healthy love it may. Everything nourishes what is strong already. But if it be only a slight, thin sort of inclination, I am convinced that one good sonnet will starve it entirely away."
in, Pride and Prejudice, Jane Austen
"I have been used to consider poetry as the food of love," said Darcy.
"Of a fine, stout, healthy love it may. Everything nourishes what is strong already. But if it be only a slight, thin sort of inclination, I am convinced that one good sonnet will starve it entirely away."
in, Pride and Prejudice, Jane Austen
Drawing
Voltei a desenhar. Já não o fazia há tanto tempo, e soube tão bem, voltar a pegar no carvão com uma folha em branco à frente... Deixar a mão deslizar e exprimir num bocado de papel o que vai na alma, lá mesmo mesmo no fundo. Desenhar...
E agora? Vamos virar a página?
E agora? Vamos virar a página?
Moleskine VS Computador
Depois de um dia horrível, cheio de tempo perdido (isto existe?), cheio de desencontros, cheio de esperas e muito desespero chego finalmente a casa, ao meu quarto...
Ligo o computador e sento-me na cama. Tiro o Moleskine da mala e coloco-o em cima da manta. Abro a página da internet e escrevo a password. Abro o caderninho e pego num lápis.
Resumindo, tenho um teclado para escrever no computador e um lápis para escrever no Moleskine, mas nada me sai, não vêm palavras à cabeça... Vazio. Só.
E estupidamente continuo a olhar de forma apática para um caderno esquecido e um ecrã letárgico, revendo-me profundamente nos dois objectos, sentindo-me uma autêntica... Vencida.
Ligo o computador e sento-me na cama. Tiro o Moleskine da mala e coloco-o em cima da manta. Abro a página da internet e escrevo a password. Abro o caderninho e pego num lápis.
Resumindo, tenho um teclado para escrever no computador e um lápis para escrever no Moleskine, mas nada me sai, não vêm palavras à cabeça... Vazio. Só.
E estupidamente continuo a olhar de forma apática para um caderno esquecido e um ecrã letárgico, revendo-me profundamente nos dois objectos, sentindo-me uma autêntica... Vencida.
clepsidra
O caleidoscópio, através do qual observava a vida, caiu ao chão. Os espelhos partiram-se. Caiu, e as minhas mãos continuam a tremer. Por incrível que pareça, continuo a ver tudo com as mesmas cores, as mesmas formas, o mesmo brilho. Só existe um vulto escuro, um buraco negro absorve todos os comprimentos de onda da radiação. Um nada que tudo absorve…
Peguei então na minha clepsidra. A água vai caindo lentamente e o tempo vai passando devagar, gota a gota. De repente, um terramoto faz tremer a terra de tal forma que a clepsidra se desequilibra e cai. Por momentos, penso que o mundo está parado, que o tempo deixou de existir. No entanto, logo ouço o batimento compassado do meu coração. O tempo continua…
Espera… Ouço mais qualquer coisa. Um som surdo, regular, perto de mim, vindo do nada escuro… Quem és tu?
Peguei então na minha clepsidra. A água vai caindo lentamente e o tempo vai passando devagar, gota a gota. De repente, um terramoto faz tremer a terra de tal forma que a clepsidra se desequilibra e cai. Por momentos, penso que o mundo está parado, que o tempo deixou de existir. No entanto, logo ouço o batimento compassado do meu coração. O tempo continua…
Espera… Ouço mais qualquer coisa. Um som surdo, regular, perto de mim, vindo do nada escuro… Quem és tu?
Lisbon revisited (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus (...)
Álvaro de Campos
[sem palavras]
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